Texto publicado
em 12/12/2004 e revisado em 16/08/2005
Este é
um assunto polêmico, porque áudio é uma das "religiões
sem deus" mais populares, mas vou me arriscar a receber uns e-mails
desaforados no melhor interesse do esclarecimento e da economia popular
:)
Tenha em
mente que:
- Coaxial
- conexão por fio. O sinal digital é transmitido eletricamente,
como em qualquer outro sistema;
- Fibra
óptica - O sinal elétrico é convertido para luz
no DVD player e reconvertido para sinal elétrico no seu Home
Theater
Existem
dois pontos a considerar quando se compara as duas conexões:
- A diferença
na qualidade (resposta em frequência, clareza,
etc) do áudio e
- A diferença
na qualidade da conexão.
Do ponto
de vista da eletrônica (e das leis da física) não
existe diferença de qualidade do áudio entre
coaxial e óptico. Ambos transmitem 0s e 1s. Quando um sistema
de transmissão de áudio digital é comprometido,
o resultado são interrupções ou talvez estalos
evidentes no som. Se você teve celular na época em que
era analógico pode ter percebido a diferença: quando a
conexão analógica é ruim, o som fica ruim (chiado,
linha cruzada). Mas numa conexão celular digital ruim, o som
simplesmente desaparece (fica "cortando")!
[14/12]
Quando a qualidade de uma ligação celular digital cai,
isso é proposital. A operadora, para poder
suportar um maior número de ligações simultaneas,
pode decidir reduzir o "espaço" reservado para cada
uma em seus canais, reduzindo a qualidade. É a mesma escolha
que você faz quando decide criar um MP3 e opta por 64, 128 ou
256Kbps.
Do ponto
de vista da conexão existem diferenças,
sim. O cabo coaxial pode captar interferência eletromagnética
gerada por outros aparelhos, resultando em interrupções
no som parecidas com a de uma conexão celular ruim. Além
disso, como o cabo coaxial interliga os "terras" dos dois
aparelhos, é possível que essa conexão provoque
o ruído que é conhecido como "hum" em equipamentos
que estejam suscetíveis a isso. É importante
salientar que o "hum" não é gerado no sinal
digital: ele surge na etapa analógica do equipamento. O cabo
óptico é completamente imune a esses tipos de interferência.
Entretanto,
o cabo óptico também é muito fresco. Você
não pode dobrá-lo e fica difícil construir um em
casa porque ele precisa ser bem preso em ambas as extremidades (nos
equipamentos) para que não ocorram as mesmas interupções
que ele deveria evitar. O "corte " da fibra precisa ser bem
rente e a fibra deve encostar perfeitamente no LED em cada lado da conexão.
Um amigo improvisou um cabo óptico com um pedaço de fibra
óptica que ia para o lixo, simplesmente fazendo um furinho em
cada tampinha das conexões ópticas e enfiando o cabo dentro,
na pressão. Está funcionando até hoje, mas seus
resultados podem ser diferentes.
Na maioria
dos casos, você não precisa se preocupar com a interferência
no cabo coaxial, porque a distância entre os aparelhos é
muito pequena. Mas caso ela ocorra, você perceberá imediatamente.
Nesse caso poderá ser negócio investir em um cabo óptico.
Quanto
à diferença de marcas e modelos de cabos: ignore. A indústria
do áudio faz o que pode para tentar convencer você de que
há uma diferença na qualidade do cabo e que um cabo rotulado
como "digital" é melhor que um cabo que não
tem esse rótulo. Isso é tudo conversa fiada de vendedor.
Na prática, se você pegar o mesmo cabinho RCA que você
já usa para ligar o seu DVD à entrada de vídeo
composto de sua TV para interligar o DVD com o Home Theather, vai ter
a mesma qualidade de som que teria com um cabo "digital" 10
ou 100 vezes mais caro. O mesmo vale para os cabos ópticos. Um
cabo óptico de R$50 não é pior que um cabo de R$500,
desde que a conexão seja feita e ele seja deixado em paz.
Se você
recebe TV digital em casa (SKY, por exemplo) deve ter percebido que
os efeitos dos problemas nas transmissões digitais são
claramentes diferentes dos problemas nas transmissões análogicas.
Não existem fantasmas nas transmissões digitais, por
exemplo. Já nas analógicas você não vê
as falhas esquisitas que o vídeo digital dá. No áudio
é a mesma coisa: os efeitos de uma conexão ruim são
claramente diferentes dos de uma conexão analógica ruim.
Dizer que o cabo digital A tem um som mais cristalino (por exemplo)
que o cabo B simplemente não faz sentido do ponto de vista
da física.
É
claro que comparar um cabo enferrujado e sem blindagem com um cabo bem
feito com contatos limpinhos é covardia.
Além
disto, a tecnologia digital ainda incorpora a correção
de erros (algo inexistente no domínio analógico). O receptor
tem a capacidade de se certificar de que o que ele recebeu foi exatamente
o que o transmissor enviou e até corrigir pequenas discrepâncias.
O cabo simplesmente não pode (nem que você queira) criar
ou absorver uma interferência que não possa ser notada
pelo receptor e corrigida ou sinalizada com um erro. Se você colocar
um cabo que deteriore de alguma forma o sinal, o receptor pode simplesmente
ficar mudo esperando que você coloque um cabo que funcione.
A explicação
mais freqüente dada pelos audiófilos para justificar que
existe uma diferença na qualidade é a ocorrência
de um fenômeno denominado "jitter". Embora jitter seja
de fato um problema em circuitos digitais (ocorre também em cabos
de rede), é um problema que tem solução fácil
justamente porque os sistemas são digitais e implementam correção
de erro. Em sistemas corretamente projetados, os efeitos
do jitter jamais poderiam ser perceptíveis.
Você
precisa entender que:
O que
o DVD player entrega ao HT através da conexão digital
não é áudio: ele entrega dados
que serão interpretados e convertidos em áudio. O computador
que você está usando para ler esta página transfere
dados de um lado para outro centenas de vezes mais rápido que
a conexão entre o DVD Player e o HT e mesmo assim não
perde nada! Um único bit que conseguir passar errado pelo sistema
digital de correção de erros pode travar a máquina
ou inutilizar um download. Com que frequência sua máquina
trava? Dez vezes por segundo? Sim, porque teria que
haver uma frequencia de erros (não corrigidos) dessa magnitude
na comunicação entre o DVD Player e HT para que seu
ouvido pudesse perceber!
Você
consegue trazer para você um arquivo pela Internet que pode
estar a milhares de quilômetros de sua casa. Esse arquivo tem,
no mínimo, que enfrentar centenas de metros de fio comum de
telefone até chegar ao seu computador. E mesmo assim chega
perfeito. Se você consegue descompactar um ZIP ou RAR sem mensagem
de erro, a transmissão foi um sucesso. Que raios de sistema
digital mal projetado seria esse que não conseguiria fazer
uma transmissão perfeita numa distância de um metro?
E do ponto
de vista da ciência, experiências em que você
mesmo muda de um cabo para outro e avalia as diferenças
não tem validade. Para ser válido, o teste tem que ser
preferivelmente do tipo double-blinded
(duplamente cego), onde você fica apenas ouvindo o som enquanto
outra pessoa (que não deve saber a diferença entre os
cabos) muda as conexões aleatoriamente e deve ser repetido por
um número suficiente de vezes. Se você acertar
todas as vezes, então existe uma diferença no
seu equipamento. Se você errar uma única vez que seja,
a diferença já foi pro espaço. Também não
adianta comparar a diferença de um equipamento usando coaxial
com outro usando fibra óptica (ou comparar dois equipamentos
usando diferentes "marcas" de cabo digital), pois isso invalida
a comparação.
Eu sei
que áudio é um campo onde impera a subjetividade assim
como também conheço a força da auto-sugestão.
E mesmo comparações subjetivas podem ser científicamente
comprovadas ou descartadas com o teste double-blinded. Se me apontarem
um teste double-blinded cientificamente conduzido que comprove que existe
uma diferença entre coaxial e óptico (ou que a marca do
cabo faz diferença) eu garanto rever meus conceitos e estudar
tudo de novo. Até lá, insisto que a diferença não
existe.
Eu encontrei
comparações divertidas que ilustram a bobagem que é
acreditar nas diferenças, como esta:
"Dizer
que um sinal digital que carrega informação sonora tem
maior qualidade com cabos caros é tão estúpido
quanto dizer que as imagens que você baixa da internet parecem
melhores se você usar cabos caros para esse propósito"
Nesta
discussão em português, onde existe uma presença
maior de audiófilos, você verá argumentação
claramente contra a minha opinião e umas poucas vozes a favor
(não de mim, mas do conceito que estou defendendo).
Nesta
outra, em inglês, onde existem mais engenheiros, você
verá que a tendência é achar que a existência
de uma difereça é meramente fruto de auto-sugestão.
Ou talvez de hipnose coletiva criada pela indústria de cabos
:D
Leia também:
Questão
17 do Dolby Digital FAQ
17.
My DVD player has two digital outputs, one optical and one coaxial,
and my Dolby Digital decoder has both kinds of inputs. Which
should I use?
Under
most conditions, optical and coaxial digital connections work
equally well. Under some rare circumstances, however, coaxial
cables, particularly very long ones, can pick up radio frequency
(RF) interference generated by household appliances, or nearby
high-tension power lines or broadcast towers.
If cost is a consideration, (how much is the cost difference?
If it’s relatively small, we should just recommend optical first.
This is a question Dolby Consumer staff can answer.), start
with coaxial, which is less expensive. If you then hear RF interference,
you can try relocating the cables, moving your components closer
together so you can use shorter cables, or, if all else fails,
changing to costlier optical cable. If cost is no object, using
high-quality optical cables from the outset is probably your
best long-term choice.
Note:
some DVD players and Dolby Digital decoders have either a coaxial
or an optical connector. Be sure that the units you purchase
both use the same type.
|
Como o
pessoal da Dolby entende "um tiquinho" de som digital e não
vende cabos (nem equipamentos), acho que dá para acreditar neles,
se você não quiser acreditar em mim ;)
Francamente,
acho que a opinião do pessoal da Dolby encerra o assunto.
Resumo:
não jogue seu dinheiro fora! Use o cabo mais barato que funcionar
e ponto!