Há algum tempo atrás, me deparei com o problema de um cliente que, orientado por um “especialista”, afirmava ter sido lesado pela empresa onde eu estava trabalhando porque ele havia adquirido um Pentium 100 (dois anos antes) e em seu chip BIOS estava escrito “586”. O cliente estava muito irritado, bradando na frente de vários outros clientes que a empresa era desonesta, e todo o blá, blá, blá do gênero. É importante frisar que o cliente chegou afirmando que havia sido lesado e não nos questionando sobre a possibilidade de um engano.
O que conseguimos entender foi que o tal “especialista” lhe disse que ele havia adquirido um 486 “turbinado” e não um Pentium legítimo.
Esta é uma questão delicada. Nosso Departamento Técnico considera a razão disso evidente porque essa é uma “história velha”, mas um leigo pode facilmente se enganar.
A palavra “Pentium” é marca registrada da Intel Corporation e só pode ser utilizada por outra empresa em seus produtos com autorização (que normalmente requer o pagamento de royalties). O nome do Pentium, seguindo o histórico da Intel, seria “586”, por ele ser o sucessor do “486”. Porém a Intel, desejando impedir que outros fabricantes copiassem o seu projeto e ainda por cima usassem o mesmo nome de processador (porque, pela lei, um número não pode ser registrado como marca), decidiu quebrar a corrente e chamar seu processador de “Pentium”.
Os desenvolvedores de BIOS (até onde sei, a Intel não desenvolve BIOS), então usam o termo “586”, porque ele tecnicamente designa os processadores da geração Pentium e não requer pagamento de royalties à Intel.
Portanto, é absolutamente normal o BIOS de um Pentium ter uma inscrição “586”.
Inclusive, é absolutamente normal também você encontrar no BIOS de um Pentium II a inscrição “686”.
Existia ainda um outro problema com a queixa do cliente, que tornava a sua posição muito difícil: a garantia de seu computador já tinha acabado e o selo de garantia obviamente estava rompido (foi assim que o “especialista” viu o BIOS). Mesmo que realmente o processador encontrado não conferisse com o que ele comprou, iria ser bastante difícil para ele provar que este não foi substituído depois da venda (dois anos é tempo suficiente para isso).
Quero aproveitar a oportunidade para alertar a todos para não acreditar cegamente em quem se auto-proclama “especialista” e também para não deduzir que alguém é um especialista porque sabe mais do que você.
Qualquer leigo que saiba trocar um HD pode parecer um “especialista” para outro leigo. Cuidado para não tomar suas palavras como verdades indiscutíveis a ponto de entrar em disputas baseado nelas. Isto pode lhe colocar em situações vexatórias.
Olhando o caso por outro ângulo, é importante que os profissionais da área tomem cuidado antes de fazer uma afirmação que pode ter consequências sérias. Um mero engano ou mal-entendido, que em muitas situações seria motivo de riso apenas, pode estragar sua imagem profissional.
Nota: É incorreto dizer “a BIOS”. A sigla BIOS significa Basic Input Output System, que significa em nossa língua Sistema Básico de Entrada e Saída.
“o Sistema”=”o BIOS”.
Mesmo que nós nos refiramos ao programa armazenado no chip ou ao próprio chip fisicamente, continua sendo “o” e não “a“.
Leave a Reply