Briga física. Vocês sabem que nunca fui tímido na hora de brigar por idéias.
Eu não sou um cara violento. Não gosto da idéia de resolver as coisas “na porrada”. E quando eu sei que há uma confusão à minha esquerda eu vou para à direita. Mas ontem, durante uma das mais longas caminhadas que já fiz me deparei com algo que não presenciava há muito, muito tempo: um cara batendo em uma garota. A última vez que eu vira algo assim foi na adolescência, em casa, mas minha mãe revida.
Eu tinha acabado de entrar em um beco que liga duas ruas do meu trajeto e pelo qual eu passo duas vezes seguidas em cada volta, quando notei duas coisas ao mesmo: um conhecido “faz-tudo” aqui do bairro que presta serviços lá em casa passou por mim com uma expressão enigmática, e mais à frente, numa saída lateral do beco, um cara parecia dar chutes em uma garota. Havia muito mato na frente, mas se ele não estava chutando-a, estava fazendo uma coreografia de dança.
Reduzi o passo e tirei os fones de ouvido. O cara estava gritando com a garota, que chorava. Ele era mais alto que ela, que provavelmente não alcançava os ombros dele. A agressão física pareceu ter parado e eu acabei seguindo meu caminho pensando “em briga de marido e mulher…”
Mas aí eu tive que enfrentar minha consciência, que é uma #@!&* vingativa.
Enquanto eu dava a costumeira volta antes de passar pelo beco pela segunda vez eu não conseguia parar de pensar na garota chorando, sendo agredida, em um beco escuro onde ninguém estava vendo.
Mas eu tinha visto e não fiz nada.
Sabe aquela situação em que você fica:
“po*ra…”
“po*ra…”
“po*ra…”
“PO*RA!” ?
Passei pela última vez no beco. O cara ainda gritava com a garota, que estava acuada, de costas para um muro, chorando. O cara estava “em cima” dela e isso só acentuava a diferença de tamanho e aquela sensação de que a qualquer momento vai sair uma bofetada. Eu parei na entrada da bifurcação que ia até onde eles estavam, a não mais que quatro metros do casal e gritei “Ei, cara! Deixa a garota em paz!”.
Para minha surpresa, nenhum dos dois esboçou reação. O cara continuou gritando, apontando para o rosto e dizendo, “olhe o que você fez!” (não consigo imaginar que pudesse ser algo relevante, já que ele parecia ser tatuado da cabeça aos pés) e a garota continuou encolhida, chorando e pedindo desculpas. Fiquei alguns segundos observando a cena e como a garota não fez qualquer gesto em minha direção eu pensei “em briga de marido e mulher… dane-se…” e recomecei meu trajeto.
Eu sou forte e meu físico, de calção e camiseta, intimida; mas não tenho técnica. Nunca precisei realmente resolver algo “no braço” e não sei como me sairia se eu realmente precisasse defender a moça. Apenas de uma coisa eu tinha certeza: se a briga começasse, um de nós dois ia ter que sair daquele beco carregado. Para minha surpresa, não senti medo em momento algum. Meu coração não acelerou. Era simplesmente algo que eu precisava fazer e sempre acreditei que somente covardes só entram numa briga quando tem certeza de que vão ganhar.
Só quando eu dei as costas o valentão esboçou reação e veio atrás de mim me xingando. E a garota veio atrás dele para “segurá-lo”. Eu me voltei para o casal, que parou há cerca de três metros, não olhei para ele, olhei para a menina e perguntei alto e claro: “Garota, você quer ajuda?”
Em meio à discussão deles, em que a garota continuava “segurando-o” para não brigar comigo, esta respondeu “não, moço, deixa para lá” e se voltou para ele para continuar a dissuadi-lo de me enfrentar. Novamente observei por alguns segundos, dei as costas de novo para o casal e saí do beco.
Não consegui dar cinco passos e a #@!&* da minha consciência me parou de novo. Me virei novamente e fiquei olhando para a saída do beco. Por causa do ângulo eu não podia mais vê-los, mas podia ouvir que continuavam discutindo e fiquei parado no meio da rua tentando decidir o que fazer.
No bairro eu sou no mínimo uma “curiosidade”. Minhas caminhadas de alta intensidade (até 7.5km/h) e várias horas de duração chamam a atenção de muita gente. Alguns até já me pararam durante o trajeto para conversar sobre isso. Eu imagino como deve ter sido curiosa a cena para o grupo de pessoas (acho que três casais de jovens) que estava há cerca de 80m rua acima. Na minha primeira passagem (quando a minha consciência ainda estava me atormentando pela primeira vez) eles estavam de pé conversando, mas desta vez quando desviei meu olhar do beco e olhei rua acima os seis pareciam estar calados olhando para mim. Pelo menos um deles deve ter notado quando saí do beco e depois parei e me virei, brilhando de suor no corpo inteiro (normal, naquele ponto do meu trajeto), ofegante e olhando fixamente para algo que eles não podiam ver.
Fiquei assim por um tempo até que as vozes no beco pareceram se afastar e à minha esquerda ouvi outra voz dizendo “eles estão indo embora”. Dois rapazes estavam vindo pela rua que ficava à frente do beco e aparentemente viram parte da confusão. Contei rapidamente o que havia acontecido e que eu havia visto ele batendo nela e fui embora.
Meu amigo José Carneiro, que caminha comigo nos primeiros 9km, me disse que eu deveria ter chamado a polícia e ido embora, porque esses caras não tem nada a perder e eu caminho todas as noites. Na ocasião isso nem me passou pela cabeça. Eu estava com o celular e a ronda da PM passou por mim pelo menos quatro vezes durante a noite. Eles poderiam ter chegado rápido. Da próxima vez (espero que não haja uma) farei isso, mas não sei se iria embora. Poderia acabar até pior: eu provavelmente iria para a delegacia testemunhar a agressão, o cara ia ser enquadrado na Maria da Penha e aí realmente ia ter motivo para guardar rancor.
Para a minha sorte, ninguém que que lê meu blog conhece minha mãe ou contaria para ela. Eu ia ter sérios problemas com minha rotina de exercícios se ela descobrisse isso. 
Parabéns Jeff por se importar, nesse mundo louco e desprovido das básicas regras morais que regeram e conduziram a humanidade por séculos.
Que Deus te abençoe e proteja sempre.