E ainda não sei se isso é bom ou ruim.
OBS.: Eu até tento evitar os spoilers, mas não dá para realmente criticar o livro usando indiretas o tempo todo.
Não leia o livro se não gostar de uma trama com pontas soltas. Se você espera que em um best seller de suspense todas as coisas esquisitas que acontecem ao longo da trama sejam explicadas, preferencialmente de uma forma surpreendente, no fim do livro, esqueça Odd Thomas. Eu li o segundo livro esperando ter explicações para os mistérios do primeiro e só o que encontrei foram mais pontas soltas.
No cinema, quando o diretor ocupa preciosos segundos da trama com um evento aparentemente banal, supérfluo, como quando o personagem de Wesley Snipes passa mal e vai ao hospital em The Art of War, você fica se perguntando o que aquela cena de 1 minuto tem a ver com a trama e no final do filme descobre que nessa visita implantaram nele um rastreador. Em filmes, cada segundo tem que ser explicado no orçamento. Já em livros, infelizmente, o autor pode se dar ao luxo de escrever páginas e páginas sobre algo e depois esquecer ou desistir de fazer o desenvolvimento.
E aí vem o maior problema de Odd Thomas. No início da trama, Odd esbarra em um portal que funciona mais ou menos como uma máquina do tempo. Mas é tão perigosa que uma pessoa sã somente recorreria a ela em caso de vida ou morte. E o que acontece quando no final do livro Odd se depara com um desfecho estarrecedor que poderia ser desfeito com uma máquina do tempo? Ele parece esquecer que conheceu tal coisa e a vida prossegue. Não se desperdiça uma linha sequer racionalizando isso, nem explicando que medidas foram tomadas para, em outro extremo, evitar que o portal fosse reaberto.
Aliás, o final da estória é brochante. Apesar de suspeitar que ia acontecer exatamente o que aconteceu, dadas as diversas dicas ao longo da narração, ainda fui apanhado de surpresa. Me senti trapaceado pelo autor. E isso mesmo tendo suspeitado, sim, que pudesse estar sendo usado o recurso do “unreliable narrator” e Odd (o narrador) estivesse escondendo algo dos leitores. Odd não apenas estava sendo um narrador não confiável, mas ainda confessa isso com todas as letras para o leitor quando a verdade é descoberta. Eu poderia ter gostado, como gostei de ser enganado pelo diretor em O Sexto Sentido, mas não gostei. Acho que faltou me enganar “do jeito certo”.
Outra coisa que me incomodou na trama foram os tais Bodachs. Ora, a menos que todos eles estivesse conspirando para enganar Odd, qual a explicação para que eles seguissem o Fungus Man (que nunca havia matado ninguém, ainda) às centenas, mas que nem umzinho sequer fosse visto perto dos outros (muito mais perigosos) envolvidos na trama? Fungus Man era apenas o doido financiador da operação e aprendiz de monstro enquanto os outros já eram monstros.
E o que eles faziam nas casas das pessoas que iam ainda morrer? Os Bodachs vem do futuro?
A necessidade de ler o livro surgiu quando vi o trailer do filme e descobri que era baseado em um best seller. Nunca havia lido nada antes de Dean Koontz e não gosto de ler algo depois de ter visto o filme. Mas justamente ter visto o trailer do filme me levou a outra frustração: as cenas cuidadosamente escolhidas do trailer me levaram a crer que Odd estivesse lidando com uma ameaça sobrenatural. Não era! Todos os antagonistas da estória eram homens sem poder sobrenatural algum. Os Bodachs, apesar de Odd sabiamente não querer descobrir do que eles são capazes, são meros espectadores, que no fim das contas só são relevantes quando as mortes começam porque Odd pode vê-los e essa visão atrapalha o seu foco inclusive literalmente!
E as coisas inacreditavelmente burras, para alguém que dá todos os sinais de ser muito inteligente, que Odd faz? Eu pensava no ator Karl Urban dizendo “Unbeliavable” e balançando a cabeça o tempo todo:
- A decisão de se livrar do corpo de Fungus Man em vez de simplesmente “se mandar” já é altamente questionável, mas dá até para aceitar a racionalização que ele faz. Porém o que ele faz em seguida…
- Leva a arma que supostamente matou Fungus Man, que não era sua, juntamente com o cadáver, mas se livra do cadáver e continua com a arma. Logo a arma que foi usada em um assassinato preparado para incriminá-lo e quando ele ainda não tinha “pisado na armadilha” e dava tempo de recuar. Mesmo sem ter intenção de usá-la (como realmente não usou) e tendo recusado a oferta de amigos que ofereceram armas para sua proteção;
- Tendo decidido enfrentar os loucos sem armas de fogo a abandonado a arma que matou Fungus Man no seu carro, Odd decide de repente sair com a arma (outra) que ele sabia ter sido usada para matar três seguranças segundos antes.
Ou seja: ele não tinha culpa de nada e saiu criando um rastro que o incriminava. E isso com o chefe de polícia, o único na organização que tinha grande probabilidade de acreditar na sua inocência, entre a vida e a morte no hospital vítima de um crime que poderia também ser atribuído a ele!
O livro não é um caso inteiramente perdido, porém. Odd é muito bem humorado e os diálogos dele com todos os outros personagens são engraçados e memoráveis. Eu gosto do estilo que mistura drama com comédia (Harry Potter, Supernatural, Castle, Rizzoli & Isles…) e ultimamente tenho sentido dificuldade para ler estórias ou assistir a séries que sejam puro drama apesar de saber que são boas (Fringe, Game of Thrones…).
O bom humor, que inclui referências a outras obras relevantes (como O Sexto Sentido) salva o livro.
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