É bom começar dizendo que, como assisti no cinema e apenas uma vez, não tive oportunidade de dar pausa e muito menos rewind para tentar entender algo que não ficou claro. Mas se eu for esperar para ter essa oportunidade vocês já terão desistido do meu blog, então vai assim mesmo. Nos comentários vocês me corrigem.
Resumo: O filme tem grandes visuais mas é maçante, raso e com um roteiro esburacado. Tire toda a curiosidade de checar a ciência envolvida e não sobra nada para se discutir sobre o filme. Nem a estória, nem os personagens são desenvolvidos o bastante para render uma boa conversa sobre o estado atual da humanidade ou seu destino. Nem mesmo sobre o destino dos personagens. Contato, de 1997, é muito mais empolgante e profundo que Interestelar.
Aviso: estou escrevendo o texto para discutir com quem já assistiu ao filme. Spoilers em abundância adiante.
O tema central do filme é a fome, que é tanta que a NASA foi encarregada de bombardear cidades do espaço para, aparentemente, reduzir o número de bocas. Mas parece que a descoberta da equação para controlar a gravidade matou a fome do povo, porque no final do filme está quase todo mundo vivendo em uma estação espacial gigante na vizinhança do buraco de minhoca sem nenhuma menção a terem passado (ou desejarem passar) para colonizar os planetas do outro lado.
Acho que na época do filme até a Wikipedia foi reescrita, porque o significado da lei de Murphy é exatamente o que Murph pensa e não o que Cooper diz. Durante o filme eu reagi com um “WTF!?” mas tive que esperar até terminar para conferir na internet se minha memória não estava me pregando uma peça. Depois desse filme vamos ter legiões de zumbis enchendo o saco com essa definição bizarra;
Se entendi direito, Murph passou dois anos em sono criogênico para supostamente ver o pai. E em menos de cinco minutos o dispensa e ainda o manda de volta para o espaço?
Como é que Murph conhecia toda a estória da viagem do pai antes mesmo de vê-lo? É claro que isso pode ter sido explicado a ela de outra forma, mas da forma que foi explicado ao espectador parece um buraco na trama.
Naquele ponto Cooper era uma lenda viva e mesmo assim quando ele acorda a tarefa de explicar a ele o ocorrido fica por conta do médico que o atendeu?
Eu admito que a Anne Hattaway é um espetáculo e eu brigaria pelo lugar na fila por uma oportunidade de povoar um planeta com a ajuda dela, mas como é mesmo que ela sozinha vai dar conta do plano B inteiro? No início do filme falam em “barrigaS de aluguel” mas mandam todas as centenas de óvulos para o espaço e uma barriga só.
Como é que algo tão absurdamente complicado que nenhum cientista da terra conseguiu resolver, pôde ser passado em forma binária e visualizando o movimento dos ponteiros de um relógio? Por quantas semanas Murph precisou olhar para o relógio sem comer, dormir ou mesmo piscar para conseguir anotar tudo, sem nenhum erro?
Cooper era engenheiro e piloto. Não um físico ou, mais difícil ainda, um astrofísico. Como é que ele conseguia sozinho fazer todos os cálculos de cabeça necessários para fazer as manobras que fez? Dá até para argumentar que foram os robôs que fizeram as idéias dele dar certo, mas é preciso conhecer muita astrofísica para ter idéias daquele tipo que tem ao menos uma remota chance de dar certo.
Planetas capazes de sustentar vida tão perto de um buraco negro? (o amigo José Carneiro me chamou a atenção para isso). E de quem foi a idéia brilhante de considerá-los viáveis? Vamos esquecer todo o problema temporal que tornaria qualquer trânsito para fora do planeta inviável e pensar apenas no óbvio: quem vai querer sair de um planeta morrendo para um que está à beira de um abismo?
Se eles tinham combustível o bastante para visitar pelo menos três planetas, não seria mais sensato deixar o planeta da anomalia temporal para visitar por último? Afinal, eles poderiam passar anos visitando os outros planetas e teriam se passado apenas minutos no planeta da anomalia (não perderiam nada) enquanto que por outro lado, os anos que eles perderiam por passar alguns minutos dentro da anomalia poderiam comprometer os resultados da visita aos outros planetas. Por exemplo, Edmund não poderia estar vivo se o planeta dele tivesse sido visitado logo (não ficou clara para mim a circunstância de sua morte)? Edit: Edmund provavelmente já estava morto quando a expedição começou. Esqueci que Brand havia dito que o sinal de Edmund tinha parado de repente. E lembrando isso, percebo que o final mostra que Edmund foi soterrado num deslizamento de terra. Mas isso não muda minha objeção.
Romilly estava muito “são” para alguém que passou 23 anos sozinho, mesmo tendo dormido boa parte do tempo. Eu acharia mais convincente se ele estivesse mais “lelé da cuca” que o tripulante da MIR em Armageddon;
Eu sei que estar “perto” de um buraco negro é muito relativo e quando assisti eu considerei que o perto era suficientemente longe para a gravidade não fazer diferença. Mas em casa “a ficha caiu”… se ele está perto o suficiente para uma hora no planeta equivaler a sete anos fora dele então deve estar perto o suficiente para nem dever existir um planeta ali;
Por quê, em nome de Asimov, um robô que nem tem mãos precisa materializar um arremedo de mão para segurar um joystick para controlar uma atracagem? Um plug na interface certa e ele não teria todo o controle necessário? Ou a nave não é “fly by wire” e o danado do joystick está efetivamente conectado por cabos a um sistema totalmente mecânico de controle?
Em um filme que supostamente tenta levar ciência a sério, ver alguém sobreviver à entrada em um buraco negro é… bizarro… O script tenta cobrir isso dizendo que aquele buraco negro é um tipo “suave” (não lembro o termo usado) mas isso poderia até explicar a nave não se desintegrar mas não um humano sobreviver. A razão para isso é simples e não é preciso entender Relatividade (eu não entendo): quando a gravidade é tão imensa, cada parte do seu corpo está sujeita a uma força de intensidade diferente. A parte do seu corpo mais próxima do buraco negro vai ser puxada com muitíssimo mais intensidade que a parte mais distante. O resultado é desintegração total. Poderia ser possível compensar isso fazendo a entrada a altíssima velocidade, mas supondo que isso fosse possível, seus órgãos também não suportariam. Você chegaria inteiro, mas morto.
Achar um objeto perdido no espaço do tamanho de um astronauta quando você está procurando por ele já não é mole, não. Mas quando Cooper aparece depois de décadas perto de Saturno é praticamente na rota para pegar um taxi. Ainda se tivessem dito que que ele apareceu num flash cegante de luz que chamou a atenção da estação espacial, mas nãoooo: “você teve muita sorte que um ranger estava passando no momento”;
O filme teria sido bem melhor se tivessem seguido a linha de Contato e “eles” fossem uma raça completamente distinta. O paradoxo criado por “eles” sermos “nós” eu poderia até perdoar num filme mais “vivo”, como Terminator 2; mas em Interestelar o paradoxo em vez de um detalhe intrigante se torna um WTF irritante.
E para não perder nenhuma oportunidade de ser chato:
- O filme é leeento demais;
- Deveriam ter colocado uma voz mais “robotizada” nos robôs. Mais de uma vez eu me confundi achando que era um dos tripulantes falando;
- Colocar uma atriz tão parecida com Anne Hattaway para fazer o papel de filha de Cooper tem algum propósito para o filme que eu não entendi? Perdi muito tempo distraído com a possível razão para Murph parecer com a Dra Brand.
Viu no Imax?
Sim, mas não fiquei impressionado
É muito melhor que esses cineminhas chinfrim que temos hoje (os cinemas de antigamente tinham som melhor), mas eu estou acostumado a assistir em casa apenas em surround 5.1 DTS com o monitor de 22″ a palmos de distância. Então eu já tenho a sensação de tela gigante (uma tela de 22″ a três palmos dá a sensação de ser maior que a IMAX na fileira K) e um som muito bom. Só não tive “force feedback”, mas este também não me impressionou.
Poxa Jefferson, que pena.
Mas comparar um monitor de 22 polegadas para uma tela que se compara a um edifício de uns 3 andares… é um complicado e um pouco engraçado :P
Entendo a distância, etc… mas é diferente, um bocadinho.
Pena, eu sei que cinema agora só se for IMAX e fileira G/H, para pagar tem que ser algo bem gasto
Mas comparar um monitor de 22 polegadas para uma tela que se compara a um edifício de uns 3 andares… é um complicado e um pouco engraçado :P
Se estivermos falando de obra de engenharia e eletrônica de projeção, realmente é uma comparação absurda. Projetar uma imagem daquele tamanho com aquela nitidez não é fácil.
Mas se estivermos falando de experiência visual, a comparação é perfeitamente válida. O monitor de 22″ na distância correta gera uma imagem do mesmo tamanho e de qualidade superior ao edifício de 3 andares do IMAX. Não há como uma projeção bater um monitor LCD em contraste. E você não precisa se preocupar com o assento, porque coloca a tela exatamente na sua frente, perfeitamente alinhada.
Cinema vale a pena pela experiência social. Pela experiência audiovisual, nem tanto.
O filme tem muitos furos, mas eu gostei mesmo assim.
É uma pena não ter IMAX em Salvador.
Um dos grandes furos na ciência no filme Interestrelar, é na lei da gravitação universal, pois um planeta cuja orbita é tão próxima de um buraco negro (uma hora nele equivale a 7 anos é ser realmente muito próximo) teria a sempre uma das suas faces voltada para o buraco negro (movimento de rotação sincronizado com o de translação orbital). E não precisa ser um astrofísico para perceber isto, pois temos exemplos bem próximo disso, a lua e o planeta Mércurio, cujas faces são sempre voltadas para a Terra e para o Sol respectivamente. Este fenômeno acontece por conta da atração gravitacional e efeito mare que é muito mais intenso se o planeta (ou lua) estiver próximo do corpo celeste que orbita (acontece uma transferência da energia cinética rotacional do planeta, e também uma aceleração no movimento de translação, para o aquecimento provocado pelo efeito de maré). Esta situação faria que um dos lados fosse tremendamente quente e o outro extremamente frio, além disso existiria um terrível e permanente furação na zona de transição, inviabilizando a vida no planeta.
Mas eu ainda continuo gostando muito filme e provavelmente assistirei mais vezes quando sair uma versão na Internet (por torrent). Se eu fosse tão radical nisso eu certamente não gostaria tanto de Star Wars (os 6 episódios) e Star Trek.
Também gostei bastante, mas os furos realmente chegam a ser irritantes, já que fizeram toda uma propaganda em cima do filme por se tratar de uma produção com consultoria de cientistas renomados deveria ser menos perceptível algumas brechas, eu mesmo fiquei bastante intrigado com o fato do Cooper não só ter entrado e ainda sobrevivido ao buraco negro, mas ainda ter encontrado uma biblioteca gigante que o ligava com o passado e esse passado ainda ser exatamente o dele. E alguém tem alguma teoria de como ele escapou do buraco negro e foi parar na órbita de Saturno?? O final também me deixou pensativo: se ele pegou a nave para ir até o planeta da Brand, quando ele chegar lá não ia estar mais velho (ou ela), já que toda manobra (viagem) que eles faziam passavam-se anos?!
Não lembro muito do filme, mas me parece que a maior parte da viagem era da Terra a Saturno. Tendo atravessado o wormhole os planetas estavam relativamente próximos. De fato o planeta para onde foi Brand era o mais distante de todos, mas acredito que essa viagem (no filme) leve meses e não anos.
Tendo dito isso eu levanto outra questão: a nave que Cooper pegou não parecia grande o bastante para uma viagem de sequer alguns dias, certo?
E quanto ao buraco negro e a biblioteca gigante, alguma teoria?
E como ele voltou para a órbita de Saturno após magicamente sair do buraco negro?!
Eu ignoro isso aí porque entra na mesma mágica que permitiu a criação do wormhole. Isto é: qualquer civilização suficientemente avançada para criar um wormhole onde quiser, apontando para onde quiser, está magicamente autorizada a fazer qualquer outra coisa relacionada com espaço/tempo
Mas no resto eu cobro que a ciência (no caso específico de Interestelar)esteja correta.
Finalmente posso assistir Interestelar de novo e numa rápida olhada já encontrei algo que entendi errado. Eu havia entendido que a NASA havia sido encarregada de bombardear cidades a partir do espaço, mas o áudio diz claramente (28:16) que a NASA havia sido fechada por se recusar a tomar parte nisso. Eu não sei se a legenda no cinema estava errada e eu não consegui pescar o trecho do áudio ou se derrapei completamente na atenção.