A impressão mais persistente que o filme deixa pode ser resumida com “What The Flock?!”
O fato do filme ter Richard Gere e Claire Danes nos papéis principais deveria fazer alguma diferença em The Flock (Justiça a Qualquer Preço – 2007), mas não fez nenhuma para mim. O filme tem uma direção esquizofrênica (que mistura doida de estilos de filmagem) e um script cheio de buracos incompreensíveis. É difícil apreciar a estória que está se desenrolando quando as atitudes dos personagens (incluindo a única que não é comprovadamente perturbada) não fazem sentido. É inteiramente compreensível que Errol não queira saber da ajuda da polícia, mas qual é a desculpa de Allison?
SPOILERS
Então você ouve os gritos desesperados de uma vítima, reconhece o o agressor que passa correndo na sua frente, mas sai em perseguição dele e nem pensa em procurar a vítima que pode testemunhar contra ele? Evitar que ela morra não seria uma boa idéia?
Então você encontra em um lugar ermo um cadáver completamente desfigurado que você por acaso reconhece por uma tatuagem e é capaz de ligar a um suspeito com antecedentes. O que você faz? Dá pelo menos um telefonema para comunicar à polícia seu achado? Nãaaao… você roda quilômetros e quilômetros pra confrontar sozinho e desarmado (o seu parceiro maluco é que tem um revólver) os psicopatas que fizeram isso (é, você sabe que se trata de “os”) e se você morrer no processo ninguém vai saber o que você achou e o que aconteceu. Muito lógico isso.
“Psicopata” e “idiota” não são sinônimos. Mas o filme parece querer nos fazer crer que os psicopatas que já escaparam uma vez da cadeia são idiotas.
E para piorar, parece demais com uma cópia muito mal feita de Se7en.
Concordo que o filme tem vários problemas, mas considere a personagem da Claire Danes uma pessoa sem qualquer experiência, que larga todos os empregos por não ter muito compromisso e ter dúvidas quanto ao trabalho. Será que ela, numa situação como aquela, pudesse pensar tão logicamente? Ainda penso que ela estava mais preocupada com o Errol do que qualquer outra coisa, lembre também que ela era a Babá do dele no período final da carreira e ainda o Errol é um completo perturbado antissocial e com tendências suicidas que não seguia propositadamente as orientações do trabalho e estava orientando a Allison. Eu tenho no meu trabalho colegas que acham que são polícia, acho que já te contei sobre isso, e ignoram qualquer manual de procedimento, já vi até voz de prisão, rs.
Em relação a morrer no processo, o Errol não dava a mínima se isso acontecesse, a maior motivação dele era dar encerramento ao caso da Abgail e não para os pais da menina, mas pra ele, as citações do começo do filme mostram que ele era hoje um sociopata. Não tinha nenhum respeito aos colegas, era individualista, não tinha vida social, ignorou até a festa de aposentadoria.
Em relação ao roteiro, o que não fica claro pra mim, se não fizer nenhuma diferença no resultado do filme, por exemplo, se o que ocorreu não foi explicado mas pode acontecer, eu aceito, nem tudo que ocorre no filme é o que nós queremos, essa é a graça.
Spoilers: Já o caso de Interestelar, em que o futuro de que o personagem do Matthew McConaughey altera o passado só ocorre por causa dessa alteração, sim é um problema de roteiro, ir primeiro ao planeta com maior influência da gravidade também é um problema, pois eles estavam procurando vida e condições para os humanos habitarem, e esse pequeno “erro” foi cometido por técnicos altamente especializados. Isso não faz sentido, mesmo assim não deixa o filme ruim. Volto ao balaço positivo da diversão.
Mesmo caso do Star Wars, creio que o que foi colocado na tela era o que a maioria queria ver, por isso o sucesso absoluto, mesmo considerando os problemas de física, que eu nem levo muito em consideração em filmes da fantasia.
Eu detestei os episódios II e III, nem consegui terminar de assistir, achei o episódio I fraco, mas gostei muito dos episódios IV, V e VI, como também do VII, que lembra mais a trilogia original.
Acredito que o filme pode ser considerado bom o não pela diversão que proporciona. Mas como isso é realmente o gosto, até considerando gêneros de filme, que podem ou não agradar ao espectador pelo simples fato do tema abordado.
Outros Spoilers, lembra do final de Edge of Tomorrow?? Sem sentido algum e estatisticamente improvável, já que seria como ganhar na Mega da Virada duas vezes seguidas sozinho e com uma só aposta, feito só para agradar ao público, não estraga o filme todo, mas que deixa um gosto amargo. Blacklist, que eu sei que você gosta, como explicar aquele cara saber de todos os detalhes, até a cor da cueca dos criminosos estando preso e sem contato com ninguém???? Volto ao balanço da diversão. Pra mim foi negativo e eu nem consegui assistir o segundo episódio.
Na minha opinião, o filme não é um clássico, mas não é ruim nem perda de tempo.
Isso não ficou estabelecido no desenvolvimento do personagem. Qualquer pessoa pode, na vida real, ter comportamentos completamente inesperados, mas o espectador só deve (e precisa) aceitar isso em um reality show (se é que algum de verdade existe). Em um trabalho que segue um script é obrigação do roteirista desenhar o personagem e fazer com que ele se comporte “in character”.Se ficar para o espectador a obrigação de aceitar comportamentos “ilógicos”, o desenvolvimento de personagens deixa de fazer sentido e tudo é um reality show.
Errol teve 18 anos para se transformar no suicida que se transformou. Isso o roteiro torna compreensível. Allison não teve nem 18 dias sendo a babá dele para virar suicida também. Não há o suficiente no roteiro para justificar isso. Se o diretor tivesse filmado menos cenas com trens e carros na rodovia teria tido tempo de inserir um ou dois diálogos que me fizessem crer que o comportamento de Allison fazia sentido, mas não o fez.
Quando eu mencionei “morrer no processo” como ilógico estava falando apenas de Allison.
Quanto a Star Wars, Interestelar e The Edge of Tomorrow, os três são filmes de fantasia ou ficção científica. É pré-requisito para assistir a esse tipo de filme começar com uma Suspensão de Descrença (SdD) elevada. The Flock é um drama. O limiar para que eu seja chutado para fora do meu estado de SdD e comece a questionar a inteligência do roteirista (ou a noção de quanta inteligência ele acha que eu tenho) é bem mais baixo. Se o filme me agradasse em outros aspectos eu poderia ter sido puxado de volta para a “zona de hipnose”, mas o danado do filme tem problemas demais para o meu gosto.
The Blacklist fica situado em outra esfera, no meio do caminho. Eu sei que a premissa não faz sentido, mas gosto da interação entre os personagens e principalmente do personagem de James Spader e isso mantém minha SdD sob controle.
Um adendo: Interestelar é um caso especial. A propaganda oficial do filme martela tanto a idéia de que a obra é “cientificamente realista” que minha SdD não tolerou os abusos no roteiro. Eu poderia ter gostado do filme se não tivesse visto a propaganda e minhas expectativas assim fossem as “normais”.