Como uma mudança de atitude me tirou da mesa de cirurgia

“Vamos ter que operar”.

Esta frase dita pela minha neurocirurgiã (Dra. Márcia) em 18/03/2021 enquanto examinava as imagens da última ressonância magnética da minha coluna cervical me deixaram em choque. Eu passei mal no consultório após ouvir isso. Eu sabia que meu caso era cirúrgico, mas a mesma médica havia me dito cinco anos antes que a gente poderia empurrar com a barriga indefinidamente desde que não se agravasse. Eu tenho três hérnias na coluna cervical (pescoço) e uma delas pressiona um nervo que me faz sentir desde simples dormência e formigamento até uma dor insuportável no braço esquerdo, que só pode ser contida com remédios controlados como a Pregabalina. As crises duram semanas mas depois eu volto a viver normalmente. Curiosamente, dor não é motivo para alarme nesse caso, pois o sintoma que requer cirurgia imediata é perda de força no braço ou mão. Entretanto o “conserto” além de poder me deixar tetraplégico vai me deixar três meses sem poder trabalhar e requer a instalação de próteses que vão limitar o movimento do meu pescoço. Eu nunca mais terei uma vida normal depois da operação.

Mas aí Dra. Márcia viu um possível comprometimento da minha medula surgir nos exames e a coisa ficou séria. Ela pediu um novo exame, chamado de “Potenciais Evocados Somato-Sensitivos” (não parece haver consenso sobre a forma correta de escrever o nome desse exame) que não pareceu confirmar as suspeitas dela ou, pelo menos, não apontava urgência para a cirurgia. Mas só não marcou mesmo a operação por causa da pandemia.

Me conformei e avisei a família e amigos que minha cirurgia era iminente, mas por motivos completamente distintos decidi fazer um esforço maior para sair do sedentarismo, começando com as caminhadas de pelo menos 12km por dia, que me fizeram perder 13kg. Em janeiro deste ano, dez meses após o choque, uma coisa aconteceu (contarei outro dia) e minha atitude em relação à vida mudou. Toda a minha personalidade começou a mudar, aparentemente para melhor. No mês seguinte eu entrei em uma nova fase e comecei a fazer musculação, mas semanas depois um novo problema surgiu: comecei a sentir os mesmos problemas que antes se limitavam ao braço esquerdo agora no braço direito. Você sabe que é a coluna quando a dor no braço depende da posição do seu pescoço.

Pensei: Desta vez a cirurgia sai mesmo com a pandemia. Marquei uma consulta de urgência com a cirurgiã no dia 12/03/22, quase um ano após ter recebido a notícia chocante que me fez sair do sedentarismo. Mas o que aconteceu nessa consulta foi uma das maiores surpresas de minha vida. No momento em que abriu a porta do consultório para mim Dra. Marcia, que sempre foi bastante séria, abriu um sorriso que não saiu do rosto dela enquanto eu detalhava as “complicações” que eu eu estava sentindo e continuou sorrindo enquanto me explicava que a mudança nos meus sintomas eram comuns e não eram nada de mais e que eu estava visivelmente diferente na aparência e no comportamento e não era mais candidato para cirurgia.

Isso vindo de quem vai ganhar dinheiro operando você e já havia convencido você a operar é digno do mais alto crédito.

A última vez que ela me vira fora sete meses antes, em agosto. Eu realmente devo ter mudado muito, principalmente nos três meses anteriores.

Eu fiquei espantado e obviamente ainda mais sorridente. Ela nem pediu que eu fizesse novos exames e me garantiu que só o que ela estava vendo em mim fazia a diferença. Sorrindo o tempo todo ela se despediu de mim depois de apenas recomendar que eu tomasse cuidado na academia para não fazer nada que machuque a cervical e continuasse a observar o sintoma que era realmente sério: a perda de força.

E a dor no braço direito sumiu sozinha semanas depois.

 

4 comentários
  • Wagner de Castro - 1 Comentário

    Jefferson, muitos dos seus relatos parecem boas séries ou livros, deixando a gente preso aguardando os próximos capítulos. Minha impaciência me previne de assistir muitas delas, e geralmente assisto a temporada toda de cada série de uma vez, ao invés de um capítulo de várias séries por mês.
    Fico muito feliz pelo relato de não precisar mais de cirurgia, e mais ainda pela nova abordagem na vida, coisa que tento constantemente fazer e tenho observado que realmente gera frutos positivos.

    • Jefferson - 6.606 Comentários

      Wagner, como cronista/escritor, técnico em eletrônica ou programador eu realmente me vejo abaixo da linha da mediocridade (de acordo com a correta definição de ¨medíocre¨). Não é falsa modéstia. Mas esses elogios me incentivam a continuar escrevendo. E apesar de ser algo que invade minha privacidade, falo sobre minha saúde porque tenho certeza de que vai ser útil para alguém. Se ajudar pelo menos uma pessoa já não terá sido perda de tempo eu ter parado para criar o texto.

      Fico muito feliz pelo relato de não precisar mais de cirurgia, e mais ainda pela nova abordagem na vida, coisa que tento constantemente fazer e tenho observado que realmente gera frutos positivos.

      Nunca é tarde demais para mudar. Nem para acreditar que alguém pode mudar. Esse tema sempre me faz lembrar do filme 16 quadras que apesar de ser um filme de ação, tem a frase ¨people change¨ como um tema central.

  • Marco Arthur Stort Ferreira - 27 Comentários

    Jefferson,
    Também tenho problemas de coluna que são um “mistério” pois não sofri trauma que pudesse ser a causa do problema. Só que no meu caso é coluna lombar e torácica.
    O que tenho tentado fazer é exatamente o mesmo que você, mudar hábitos e praticar atividade física. No meu caso, optei por fisioterapia com profissional especializado (clínica e fisioterapeuta) e também estou vendo resultados positivos.
    Mas enfim, vamos tentando melhorar a saúde e fugir da cirurgia.
    Abraço.

  • Jefferson - 6.606 Comentários

    Acho importante ressaltar aqui que a doutora nunca me ofereceu o caminho da saída do sedentarismo como escapatória para a cirurgia. Eu decidi fazer isso porque, se eu não conseguia imaginar algo que tivesse feito (ou deixado de fazer) para justificar um problema tão sério, que ia mudar minha vida para pior definitivamente, imagine quando a conta pelo meu desleixo e irresponsabilidade com meu corpo e minha saúde começasse a chegar. Os resultados ruins dos meus exames de sangue eram uma constante há muitos anos: colesterol ruim alto, colesterol bom baixo, excesso de triglicerídeos, glicose na porta do diabetes… Eu pensei: “só faltava eu ficar também diabético para arruinar minha alegria de viver!”.

    Eu decidi fazer o que fiz (e continuo fazendo) para a situação não ficar ainda pior. E fui surpreendido com o presente de manter a necessidade da cirurgia na cervical como apenas uma possibilidade. Já se passaram quase três anos desde o choque do “vamos ter que operar”.

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