Tomei a decisão enquanto estava em Dublin. É difícil não ficar encantado com a vida em um país do “primeiro mundo” e a não ser que você goste do “jeitinho” brasileiro (eu detesto) não desejar ficar lá permanentemente. Mas mesmo com minha irmã morando lá minhas chances de conseguir um emprego seriam pequenas, pois em primeiro lugar me falta a “coragem” da minha irmã de “meter a cara” e em segundo lugar sem um diploma de nível superior as vagas mais prováveis para um brasileiro em Dublin são de lavador de pratos ou garçom, dependendo do nível do seu inglês. Eu ficaria arrasado se em uma das minhas futuras viagens para levar mamãe aparecesse uma oportunidade de emprego na minha área e eu a perdesse por não ter o danado do diploma.
Então decidi fazer Análise e Desenvolvimento de Sistemas na modalidade Tecnólogo, que dura apenas dois anos e meio. Lá fora eles sabem que o grau de tecnólogo é um curso superior “meia boca” (na melhor hipótese deve equivaler a um Associate Degree), mas minha idéia é primeiro assegurar um diploma tão rápido quanto possível e em seguida fazer uma segunda graduação e/ou uma pós. Estou ciente de que dois (ou três) diplomas de tecnólogo não vão necessariamente substituir um bacharelado, mas é o que no momento se encaixa na minha disposição. E um diploma tem outros usos, mesmo esquecendo a Europa.
Estou contando isso para vocês agora porque finalmente saiu minha última nota. Sim, eu acabo de terminar o primeiro período da faculdade. Voltei ao Brasil no dia 29/08, na semana seguinte estava fazendo o “vestibular” e no dia 10/09 comecei a freqüentar as aulas. Não contei antes por dois motivos:
- Vocês já devem ter notado que usualmente eu nunca falo do que vou fazer ou estou fazendo. Eu normalmente escrevo sobre o que já fiz e isso é mais ou menos proposital;
- Nas primeiras semanas de aula eu não estava certo de que conseguiria sobreviver ao primeiro período.
Logo na primeira aula tive um choque. Era Matemática Computacional e o professor estava explicando Análise Combinatória. Um assunto que qualquer um cursando a faculdade não deveria estar precisando ver de novo (afinal, é matéria do segundo grau) mas que eu nunca estudara oficialmente porque não fazia parte do currículo de Eletrotécnica. Eu achei fácil, mas além de fazer uma pergunta estúpida ao professor que se eu tivesse pensando por mais dez segundos não teria feito, esbarrei em problemas do exercício que eu não conseguia responder de jeito nenhum.
Não era apenas o problema de ter passado 28 anos sem usar o que aprendi no segundo grau: eu tinha que lidar com meu próprio nervosismo. O mesmo que mais de trinta anos antes me fez passar mal em dois exames para a ETFPE. Eu estava me sentindo inadequando e incapacitado para a tarefa. Havia momentos em que eu sentava para tentar resolver exercícios e meu cérebro demorava a “focar”. Eu lia o parágrafo mas não conseguia absorver nada. Percebi então que além de absorver o conteúdo das matérias eu tinha que controlar meus nervos ou do contrário tudo estaria perdido. Não adiantaria nada saber responder a prova (se eu chegasse a esse ponto) se fosse para dar “um branco” na hora ou, pior, eu ir bater na enfermaria. E estou muito velho para esses constrangimentos. “Relaxar” era imperativo.
Não pareceu que ia ser fácil. Quando entrei na faculdade o período letivo já tinha começado há pelo menos duas semanas e eu perdera várias aulas. Para terminar de “lascar” com meus nervos, na segunda semana, durante uma aula de matemática eu recebi um email da faculdade dizendo que o período de provas já tinha começado! Nem consegui assistir a aula direito. Depois, mais calmo, eu me dei conta de que não era coisa para pânico pois se tratava da disciplina que era ministrada por EAD e essa prova era apenas uma avaliação preliminar, que eu tinha quase dois meses para fazer. Se eu fosse cardíaco a faculdade teria me matado do coração com essa!
Mas para resumir, senão esse post vai ficar muito longo: o diabo não era tão feio assim. Depois de entender as regras de avaliação da faculdade e traçar um plano de ação eu consegui a segurança necessária para controlar meu nervosismo. Eu tive que botar na cabeça que:
- Tomar nota baixa (não estou acostumado) não seria o fim do mundo. Eu teria outras chances;
- Ser reprovado em uma matéria (nunca aconteceu) não seria o fim do mundo. Eu poderia pagar a cadeira de novo;
- Se no final eu me declarasse incapaz para a tarefa isso também não seria o fim do mundo.
E tudo acabou dando certo. Essas foram as minhas notas:

Eu não pretendo informar aqui que faculdade estou cursando, em primeiro lugar para preservar minha privacidade (os leitores com os quais eu já troco mensagens privadas podem perguntar por email, se quiserem) e em segundo lugar porque formei uma opinião bastante crítica sobre ela e parte dos problemas me beneficiam. Nesse caso eu acho que seria anti-ético, como cuspir no prato que estou comendo. Além disso minhas críticas poderiam atingir alguns inocentes pois eu posso facilmente julgar o que está errado, mas determinar por que está errado requer muito mais informação e eu sinto que algumas “falhas” tem múltiplas explicações. Por isso é melhor não falar nada sobre a instituição, mas vocês devem esperar por futuros posts sobre assuntos tratados na faculdade. Existem posts anteriores relacionados que eu publiquei sem mencionar a razão mas que agora vão ganhar uma tag.
23/06/2019 – Terminei o segundo período (e o terceiro)
A faculdade que estou cursando é uma bagunça. Nós começamos o primeiro período no meio de 2018 matriculados nas disciplinas do segundo, o que já era questionável; mas quando começou o período seguinte em vez de sermos matriculados nas disciplinas do primeiro período fomos automaticamente matriculados no terceiro. Isso desencadeou uma onda de protestos e insatisfação geral, porque claramente algumas disciplinas do terceiro período não podiam ser cursadas sem o básico ensinado no primeiro. A justificativa era de que a faculdade não tinha aberto turmas ainda para o primeiro período (faltavam alunos novos). Por conta disso vários de meus colegas trocaram de faculdade e outros ficaram em casa à espera da abertura das turmas mas eu preferi ficar assistindo às aulas do terceiro período enquanto esperava. Como eu já tenho uma base extensa o conteúdo das aulas não parecia nada especialmente difícil e quando as disciplinas do primeiro começaram a aparecer eu percebi que elas se encaixavam nos meus horários vagos e decidi simplesmente acrescentá-las. Eu acabei conseguindo cursar ao mesmo tempo o terceiro e o primeiro períodos inteiros, com exceção de uma disciplina do primeiro e uma do terceiro, cada uma de 44h.
Tive medo de “estar dando um passo maior que minhas pernas”, mas no final correu tudo bem:

As duas disciplinas com apenas uma nota são as online, que só tem uma prova mesmo. E essa nota que está destoando das outras eu vou tentar consertar na semana que vem. Vou fazer a “AV3”, que pelas regras da faculdade substitui a menor nota que eu tiver (se for maior, claro).
O único real inconveniente é que fui separado dos meus colegas do primeiro período por mais da metade do semestre e agora me distanciei ainda mais deles por ter avançado um período.
18/11/2019 – Terminei o quarto período
Depois de entrar para a faculdade eu já consegui fazer o que me pareceu impossível umas três vezes. A mais recente veio com este boletim:

As disciplinas que só tem uma nota são as disciplinas que paguei por EAD. Não sei se consigo e nem realmente se devo manter esse ritmo. “Passar” nessa faculdade (a média é 6) é muito fácil. Tão fácil que para mim é quase uma questão de honra tirar nota 10. Mas isso é muito estressante, principalmente nesse ritmo de oito disciplinas por semestre.
O semestre que vem é o último e também vai ter oito disciplinas. Se tudo correr como planejado eu vou terminar a faculdade seis meses antes do previsto na estrutura curricular.
Para ilustrar o quanto uma nota baixa é algo complicado para mim: antes de sequer pensar em entrar na faculdade eu já tinha dois temas recorrentes em meus pesadelos:
1)Um grande prejuízo com o carro
2)Estar às vésperas de uma ou mais avaliações na escola e, por razões nunca definidas, não ter estudado nada
Com relação a ser reprovado em alguma cadeira, vou dar uma dica que me serviu muito quando eu cursei universidade (me formei em 2007 em Comunicação Social). Um certo dia eu estava preocupado porque eu precisaria pagar três cadeiras no último período e a minha preocupação maior era se eu teria tempo para estudar as três cadeiras e ainda fazer o meu trabalho de conclusão do curo (o último para se formar). Foi aí que um professor me disse mais ou menos isso:
“Fica tranquilo que no último período, se tu for um bom aluno, os professores não vão te prejudicar. Então se tu reprovar alguma cadeira, não tem problema”.
Em resumo, no último período eu paguei as três cadeiras na parte da manhã (eu estudava a noite) e realmente os professores se mostraram bem amigáveis, chegando ao ponto de uma das provas, a professora me deixou fazer com consulta. E em outra cadeira, o professor substituiu a prova por um trabalho que fiz em dupla com outro colega que estava no último período.
Então eu acredito que na maioria das Faculdades ou Universidades (não sei bem a diferença até hoje), se você chegar no último período devendo alguma cadeira, se tu for um bom aluno e não causar problema pro professores, eles não vão dificultar pro teu labo.
Acho que essa coisa dos pesadelos deve ser bem normal … Estou formado faz quase 20 anos, e vez ou outra (umas 2-3x ao ano) ainda tenho um sonho no qual eu esqueci que estava cursando uma cadeira do último semestre, não apareci nas aulas, e chegou a hora das avaliações. Relaxa e aproveita a experiência em si, que é tão válida quanto o objetivo final :-)
Cacetada, achei que isso só era comigo… também tenho sonhos que estou indo super mal numa prova da cadeira de Matemática III (Integral Dupla)… e olha que me formei em 2002… deve ser mais comum do que pensava isso… kkk
A diferença do meu caso para o de vocês é que o que eu chamo de pesadelos vocês chamam de sonhos
Acabo de descobrir que é mesmo “normal” ou pelo menos “comum”.
Uma cena aos 28m20s do episódio S02E06 de The Magicians mostra justamente um pesadelo assim, o que me fez fazer uma rápida pesquisa e encontrei várias páginas como esta.
No meu primeiro período da faculdade, tinha uma matéria de programação em que o sistema de avaliação consistia em escrever programas e enviar para um sistema automatizado que fazia a compilação e aplicava várias (em geral, 10) entradas para o programa e avaliava a saída, comparando com as respostas certas cadastradas pelo monitor da aula. Os alunos não tinham acesso aos testes, apenas sabiam se a resposta do programa estava certa ou errada para cada teste.
Lá pelo quarto ou quinto laboratório, eu já estava arrancando os cabelos porque meu programa não passava de 9 de 10 respostas certas. Os labs anteriores sempre obtive nota máxima. Era madrugada já quando um veterano chegou na sala de computadores e puxou papo, e eu expliquei a situação. Foi quando ele disse algo mais ou menos assim:
– Cara, relaxa. Nem nessa matéria, nem nas outras você vai conseguir tirar 10 em tudo. Faz o que você consegue, procura entender e corrigir o que você não conseguir de primeira, mas não se mata por causa de 1 ponto no final, se sua nota já for suficiente.
Essas palavras foram libertadoras. Saiu um peso das minhas costas e no final, deu tudo certo com a faculdade. E devo muito disso à esse veterano e ao que ele me disse.
Que coincidência, eu também agora com 33 anos tomei vergonha para entrar na faculdade neste mesmo curso, aqui na minha faculdade chamam de Tads – Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de sistemas.
Porém diferente de você notas baixas sempre foi meu ponto forte, sempre odiei estudar pois no ensino básico 90% é lixo então nunca consegui me concentrar em algo que eu julgava inútil. tanto que fiz quatro vezes a sexta série, e só concluí o segundo-grau este ano fazendo supletivo, mas agora na faculdade aprendendo o que gosto e que julgo útil está sendo bem diferente.
As matérias no primeiro-semestre aqui são bem diferentes: Redes I, Design Web, Economia, Leitura e Produção de Texto e Sociologia (a última quase me fez desistir da faculdade, se tivesse mais um semestre com isso creio que eu pulava fora).
Eu pensava assim mesmo quando era mais novo (mas estudava mesmo assim). Só mais velho fui chegar a conclusão que biologia, português, história, e outras matérias serão sempre importantes para ter uma vida completa e poder ser um profissional e pessoa completa (mesmo fazendo engenharia).
Estudar história (entendendo, e não apenas decorando) é bom para não ser facilmente manipulado pelos fake news (de todos os partidos e orientações) e ser uma pessoa crítica, não ser mais um cordeirinho ou animal irracional manipulável. Estudar biologia serve para não cair nas estórias de que vacina provoca altismo entre outras imbecilidades. Português (mesmo para um engenheiro) é muito importante para a comunicação fluir com qualidade, fazer relatórios que sejam bem compreendidos, uma ferramenta realmente indispensável em qualquer profissão (infelizmente é o meu ponto fraco, mas como eu leio muito o meu nível acaba sendo aceitável em português).
Jefferson, seu curso mescla aulas presenciais e a distancia? Desculpe a curiosidade.
Não vejo problema no seu questionamento.
O contrato esclarece que até 20% do curso presencial pode ser ministrado via EAD, nos termos de uma portaria do MEC.
Neste período eu fiz Negócios Eletrônicos. No próximo dizem que será Português.
Português e Organização e Arquitetura de Computadores. Eu pude até escolher.
Esse limite aumentou para 40%, mas ainda não sei se a faculdade que frequento pode/vai adotar esse aumento.
Atualizei o post com informações deste semestre
Atualizei o post com informações do penúltimo semestre.