Finalmente terminei Fight Club (Clube da Luta – 1999). É pior do que pensei.

Eu havia começado anos atrás e parei a aproximadamente 1/4 do final, na cena onde a “gang” amordaça e ameaça o comissário de polícia. Naquele ponto eu estava realmente incomodado com o filme, porque entre outras coisas não havia por quem torcer. Em Fight Club o conflito não é entre o bem e o mal, o certo e o errado. Nem mesmo entre duas interpretações diferentes mas plausíveis do “certo”.  As “forças do bem” tem uma participação tão insignificante no filme que você pode ignorá-las. É um conflito entre desequilibrados [6].

Aí eu fiquei sabendo no final do ano passado que havia uma reviravolta. Que havia uma ilusão. E meu interesse no filme se renovou. Assisti ao filme desde o começo e acabei com uma impressão ainda pior do que antes.

Se não assistiu, pretende assistir e spoilers incomodam você, não passe deste ponto.

Até a formação do clube da luta o filme fazia algum sentido, mas desde que Durden convenceu Lou a emprestar o porão da sua taverna de graça simplesmente se deixando surrar e depois espirrando sangue nele, a lógica do filme começou a desmoronar. Não há nada no filme que explique como Durden conseguiu convencer os membros do clube a se alistarem para o exército pessoal não remunerado (basicamente, um culto) dele. Uma coisa é um homem movido pelo excesso de testosterona querer extravasar batendo em outras pessoas com o consentimento delas. Não há nada de imoral nisso. Mas convencer os membros, mesmo uma parte deles, a se engajarem nas outras atividades do “clube” dependia de um estado mental completamente distinto sem qualquer relação direta com “querer lutar”, logo não existe explicação no filme para o exército de Durden existir.

Mas esse acabou sendo o menor dos problemas quando descobri que os dois personagens principais, que interagem na tela entre si e com outras pessoas, são a mesma pessoa. E não, isso não ocorre nem de longe com a perfeição de “O Sexto Sentido” pois o diretor simplesmente decidiu esticar o conceito de Narrador não confiável até chegar em Através dos Olhos da Loucura mas sem o cuidado que teve o diretor de Uma Mente Brilhante para evitar que a audiência se sinta enganada. Eu me senti enganado por David Fincher.

No final, descobrimos que o filme inteiro é visto pelos olhos de alguém completa e irremediavelmente [1] insano, de tal forma que tudo o que se passou na tela pode ou não ter acontecido [2] (parece que fui o único a notar isso) [5] e todo problema do filme tem uma desculpa pronta. Eu não duvido que alguém possa gostar desse tipo de estória, mas me surpreende que tenha uma nota tão alta no IMDB pois para mim conseguiu ser pior que a reviravolta de Basic.

Como sempre eu tentei encontrar na internet alguém que conseguisse justificar o filme (se tanta gente gosta dele, o que foi que eu não notei?) mas tudo o que achei foi blá-blá-blá (que soa para mim como pseudo intelectual) sobre supostas mensagens do filme sobre a futilidade do consumismo e a “opressão” das pessoas comuns [3] que saem pela tangente na hora de explicar como arrumar um emprego de garçom especificamente para poder urinar na comida dos outros (e depois processar o restaurante pelo que você fez), vandalismo e terrorismo são uma reação válida para esses problemas.  Talvez isso funcione no livro que deu origem ao filme mas do que o diretor David Fincher mostra na tela só se salva a atuação de Brad Pitt [4] e as frases (que vem do livro, claro).

Sim, eu desrespeitei as duas primeiras regras do Clube da Esquizofrenia. Vai encarar? :lol:

 


[1] Alguns vêem o final como o “arrependimento” de Durden. Mas como é possível o remorso de uma das personalidades contar como arrependimento? A própria morte da segunda personalidade não faz sentido algum. Durden dá um tiro na boca e faz um rombo na cabeça apenas do seu alter ego louco? Aliás, esse é outro exemplo do próximo item, pois um tiro na boca, mesmo saindo pela bochecha, não sai tão “barato” assim.

[2] Como se explica, por exemplo, a cena do circuito de vigilância onde o personagem de Edward Norton é visto deitado de costas no chão arrastando a si mesmo pelos cabelos? Isso já não é mais nem esquizofrenia, é Poltergeist.

[3] O filme aborda esses temas, mas acho difícil tratar isso como “mensagens” depois da bagunça que vira a trama. Está mais para “desculpas”, porque a mensagem do filme é a violência.

[4] Acho Edward Norton muito sem graça (se bem que no filme essa pode ter sido a idéia) e Helena Bonham Carter só fica bem como Belatrix Lestrange.

[5] Encontrei uma única pessoa que notou. Ele diz que, pelo que a audiência sabe, o narrador pode muito bem estar numa cela acolchoada imaginando tudo aquilo.

[6] Até aí tudo bem. Se o problema do filme fosse só esse seria apenas uma questão do filme ter uma temática desagradável para mim e minha crítica se resumiria a “não gostei”.

 

4 comentários
  • Rivaldo Freitas - 1 Comentário

    Clube da Luta é mistura de pseudo-intelectualidade com efeito rebanho, com o tempo milhões de pessoas glorificam o filme porque outros já fizeram isso antes. Tem muitas obras que jogam o jogo da pretensão, onde todos pretendem que essa ou aquela obra são geniais, e todos pretendem que todos concordam com essa corrente de pensamento.

  • Jorge Mendonça - 60 Comentários

    Assisti no cinema e achei fantástico na época. Mas eu tinha 16 anos, idade em que nos achamos infinitamente mais inteligentes do que realmente éramos. Depois disso não assisti novamente.

  • Juliano Stringari - 3 Comentários

    Ainda bem, pensei que somente eu não tinha gostado desse filme…

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